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Nova evangelização do Semi-árido cearense
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Jesus Cristo deu à Igreja a missão de evangelizar quando disse aos seus discípulos: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura.” (Mc 16,15). Evangelizar é a grande graça, a imprescindível e constante tarefa da Igreja. “Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (I Cor 9,16). O anúncio do Evangelho é a proclamação da boa nova, que tem, antes de tudo, a finalidade de atrair as pessoas a Jesus Cristo e levá-las ao seu encontro. “Jesus é o caminho, a verdade e a vida.” (Jo 14,06). A tarefa da evangelização não se trata apenas de pregar o Evangelho a diversas comunidades, pessoas, mas de atingir e transformar, pela força da Palavra do Senhor, os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e o modelo de vida de cada uma das pessoas atingidas pelo Evangelho. Evangelização consiste em responder eficiente e eficazmente à luz do Evangelho, os desafios e apelos. Para esta eficiência e eficácia, há necessidade de uma Nova Evangelização.
NOVA EVANGELIZAÇÃO
O Evangelho de São Mateus nos apresenta uma passagem que considero típica do encontro e do choque de culturas com a Boa Nova de Jesus, o Senhor. Este texto ilumina a ação da Igreja quando tais impactos históricos acontecem. Assim disse Jesus Cristo: “Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o pano velho e o rasgão fica maior ainda. Também não se põe vinho novo em odres velhos, senão os odres se arrebentam, o vinho se derrama e os odres se perdem. Mas vinho novo se põe em odres novos, e assim os dois se conservam” (Mt. 9, 16-17). Jesus complementa este assunto explicando sobre o Reino de Deus. “Todo escriba que se torna discípulo do Reino dos Céus é como o pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.” (Mt 13, 52). Nessas passagens bíblicas, temos a expressão viva do encontro e do choque da cultura judaica com a cristã e, ao mesmo tempo, oferece-nos uma chave de discernimento e de ação.
João Paulo II insistiu numa nova Evangelização na América Latina, por três principais razões: 01– Porque o conteúdo imutável da revelação, que deve estar presente na Evangelização de todos os tempos, possui, sem dúvida, novos horizontes de compreensão; 02 – Porque a Boa Nova enfrenta novos desafios, por mudança de valores que dificultam a compreensão da mensagem e conversão do homem contemporâneo de Jesus Cristo; e 03 – Porque a nova cultura introduz mudanças nos significados dos sinais e na chave mesma da linguagem integral, que dificultam a mútua compreensão entre a Igreja e a cultura, isto é, entre a Igreja e o homem de hoje.
Para cumprir sua missão de continuar sob inspiração do Espírito Santo, é dever da Igreja escutar atenciosamente os sinais da época e interpretá-los à luz do Evangelho, de forma que, se acomodando a cada geração, possa a Igreja responder perenes interrogações sobre a vida presente a e vida futura e sobre a mútua relação de ambas. É necessário, portanto, conhecer e compreender o mundo em que vivemos (GS. 4)
NOVA EVANGELIZAÇÃO PARA O SEMI-ÁRIDO CEARENSE
Nosso Dom Aloísio Lorscheider, profundo conhecedor do semi-árido nordestino, deixou pistas seguras para uma Nova Evangelização dessa região: “O atual Nordeste não aconteceu, ele foi produzido. É preciso produzir um novo Nordeste, com novas e renovadas estruturas, mas, sobretudo, com homens novos, com mulheres novas, que todos e todas saibam ser verdadeiramente livres e responsáveis e não só saibam, mas também possam ser livres e responsáveis”.
Uma das bênçãos para a Igreja no Ceará foi o Regional CNBB NE I ficar circunscrito ao Ceará, facilitando uma Nova Evangelização do semi-árido cearense. Bênção ainda maior é a Igreja no Ceará se conservar sempre aberta às Igrejas do Nordeste para unir forças e realizar intercâmbio de experiências pastorais, como fizemos no 1º e 2º seminários sobre o homem e a seca no Nordeste e neste seminário sobre a vida sustentável no semi-árido cearense, convidando, com alegria, representantes dos Regionais da CNBB do Nordeste. O Ceará, com mais de 90% de sua região geográfica e população no semi-árido, salvo melhor juízo, deve fortificar uma Nova Evangelização do semi-árido cearense para que todos tenham vida e vida plena.
Dom Benedito Francisco de Albuquerque
Bispo emérito de Itapipoca
COMBATER A POBREZA, CONVIVER COM O SEMI-ÁRIDO
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Até vinte ou trinta anos, os temas que preocupavam os cientistas sociais eram o desenvolvimento econômico, a modernização, a participação política, a democracia e a mobilidade social. Hoje, o tema do momento é o da pobreza e o da exclusão social. Não é que os temas da pobreza e da exclusão não estivessem presentes no passado, mas eles eram vistos como uma decorrência de problemas, deficiências ou desajustes na ordem econômica, política e social, que seriam resolvidos e superados logo que estes problemas, deficiências e desajustes fossem sendo equacionados.
Hoje, o tema da pobreza aparece no primeiro plano, e há um consenso de que é preciso ter uma visão ampla e articulada de pobreza. Se esta fosse apenas material, para iluminar suas características, seriam suficientes as ciências que nos ajudam a medir os fenômenos baseados, sobretudo, nos dados de tipo quantitativo.
Sabemos, porém, que existem pobrezas imateriais, que não são conseqüência direta e automática de carências materiais. Daí, Bento XVI, na Mensagem para a Celebração do Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2009, chamar atenção de fenômenos de marginalização, pobreza relacional, moral e espiritual. Neste mesmo documento, afirma com razão: “quando o homem não é visto na integridade de sua vocação e não se respeitam as exigências de uma ecologia humana, desencadeiam-se também as dinâmicas perversas da pobreza”. Daí concretamente para combater a pobreza, é fundamental relembrar algumas sábias exigências colocadas pelo Papa, em sua Mensagem para Celebração do Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2009.
COMBATER A POBREZA
Combater a pobreza implica uma análise atenta do problema complexo que é a globalização, não olhando apenas problemas econômicos, sociais, mais evocando outros morais e espirituais.
Combater a pobreza requer olhar o homem na integridade de sua vocação, respeitando as exigências de uma verdadeira ecologia humana, com justas e eficazes teorias e práticas de gerar a vida humana com dignidade.
Após esta análise, feita com profundidade e em sintonia com o projeto divino, seja montado um planejamento considerando os meios viáveis para combater as verdadeiras causas da pobreza e não ficar patinando em falsos pressupostos. Um exemplo para esclarecer: quanto tempo no Ceará a seca foi tida como a causa exclusiva da pobreza? Hoje, há convicção de que é possível uma vida digna: convivendo com o semi-árido cearense. Os dois seminários sobre o homem e a seca do Nordeste realizados em Fortaleza contribuíram muito para se acreditar na convivência com o semi-árido.
CONVIVER COM O SEMI-ÁRIDO CEARENSE
No 1º Seminário sobre o Homem e a Seca no Nordeste, em 1982, entre outras coisas, ficou bem claro que a vida no Nordeste é viável, só faltando decisão política para combater as perversas dinâmicas da pobreza.
No 2º Seminário sobre o Homem e a Seca no Nordeste, em 1998, já não se pensava prioritariamente combater a seca, mas conviver com o semi-árido.
O Seminário: A Vida Sustentável no Semi-Árido Cearense, que vai acontecer de 12 a 14 de fevereiro de 2009, em Fortaleza, já acena para uma vida com dignidade humana, aproveitando as experiências válidas, valorizando as parcerias entre Governo, Organizações não Governamentais, Igreja e todas as pessoas de boa vontade.
Necessitamos falar menos da seca e mais do semi-árido com o qual devemos viver criativamente e com vida plena.
Dom Benedito Francisco de Albuquerque
Bispo Emérito de Itapipoca
Coordenador da Comissão Episcopal para o Semi-árido - CNBB - Reg. NE 1
O EVANGELHO DA VIDA
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O seminário Vida sustentável no semi-árido cearense, que terá como tema “Ceará: Vida com Dignidade”, a realizar-se de 12 a 14 de fevereiro de 2009, em Fortaleza, refletirá sobre a vida em todas as suas dimensões.
João Paulo II, na encíclica o Evangelho da Vida no n° 1, assim caracteriza a vida: O EVANGELHO DA VIDA está no centro da mensagem de Jesus. Amorosamente acolhido cada dia pela Igreja, há de ser fiel e corajosamente anunciado como boa-nova aos homens de todos os tempos e culturas.
Na aurora da salvação, é proclamado como feliz notícia o nascimento de um menino: “Anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, Senhor” (Lc 2,10-11). O motivo imediato que faz irradiar esta “grande alegria” é, sem dúvida, o nascimento do Salvador, mas, no Natal, manifesta-se também o sentido pleno de todo o nascimento humano, pelo que a alegria messiânica se revela fundamento e plenitude da alegria por cada criança que nasce (cf Jo 16, 21).
Vida Plena
O homem é chamado a uma plenitude de vida que se estende muito além das dimensões de sua existência terrena, porque consiste na participação da própria vida de Deus.
A sublimidade desta vocação sobrenatural revela a grandeza e o valor precioso da vida humana, inclusive já na sua fase temporal. Com efeito, a vida temporal é condição basilar, momento inicial e parte integrante do processo global e unitário de existência.
Precisamos considerar, desde a terra, a vida humana em todas as suas dimensões. O seminário acima citado, na medida do possível, vai contemplá-la em sua plenitude, buscando soluções para uma vida sustentável no Ceará.
A vida no Ceará
No Ceará, a população já atingiu, segundo estimativa do IBGE 2006, um contingente de 8,21%, milhões de pessoas, que corresponde a 4,4% da população brasileira e 15,92% do Nordeste. A taxa de urbanização chegou a 74,5%, concentrando-se mais da metade desse contingente, 41,56% ou (3,4 milhões), na região metropolitana de Fortaleza. A taxa de residência permanente em localidades rurais totaliza hoje 25,5%, o equivalente a 1,931 milhões de habitantes.
O índice de analfabetismo continua muito alto, com 1,26 milhões de jovens e adultos (Plano de Educação Básica – Secretaria de Educação do Estado).
As situações de pobreza e miséria no Ceará continuam a atingir mais da metade da população. No âmbito do litoral, temos a problemática sócio-ambiental vivida pelas comunidades pesqueiras, que sofrem as conseqüências da pesca predatória e da carcinicultura.
No interior do Estado, continua o desafio da convivência no semi-árido com sua problemática própria, exigindo maior atenção a gestão dos recursos hídricos, a construção de cisternas e de pequenos e médios açudes, a geração de empregos e a reforma agrária. Temos ainda a ampla problemática dos centros urbanos, especialmente, dos maiores, que se agrava nas periferias e nas áreas de risco.
Em meio a tantos problemas, constata-se empenho pelo resgate da cidadania, pela solidariedade e justiça social, pela ética na política, pela atenção aos excluídos, como testemunham as muitas iniciativas empreendidas por movimentos sociais, ONGs, organizações populares, pastorais sociais e outros organismos eclesiais, expressando compromisso da sociedade civil na transformação social.
Que a Igreja de Deus que está no Ceará, assumindo a Vida como prioridade, possa cada vez mais protegê-La e defendê-La, como fez Jesus Cristo.
Dom Benedito Francisco de Albuquerque
Bispo emérito de Itapipoca e da Comissão Episcopal para o Semi-árido da CNBB NE1
A DIGNIDADE HUMANA
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A DIGNIDADE HUMANA
O Seminário sobre a Vida no Semi-Árido Cearense, que vai acontecer em Fortaleza, de 12 a 14 de fevereiro de 2009, tem como tema CEARÁ: VIDA COM DIGNIDADE.
Hoje restringiremos a considerar a Dignidade Humana, parte essencial do tema deste importante Seminário.
Começaremos citando o Documento de Aparecida n° 104, que sintetiza admiravelmente a essência da Dignidade Humana:
“Bendizemos a Deus pela dignidade da pessoa humana, criada à sua imagem e semelhança. Ele nos criou livres e nos fez sujeitos de direitos e deveres em meio à criação. Agradecemos a Ele ter-nos associado ao aperfeiçoamento do mundo, dando-nos inteligência e capacidade para amar; e lhe agradecemos a dignidade, que recebemos também como tarefa que devemos proteger, cultivar e promover. Bendizemos a Deus pelo dom da fé que nos permite viver em aliança com Ele até o momento de compartilhar a vida eterna. Bendizemos a Deus por nos fazer suas filhas e filhos em Cristo, por nos haver redimido com o preço de seu sangue e pelo relacionamento permanente que estabelece conosco, que é fonte de nossa dignidade absoluta, inegociável e inviolável. Se o pecado deteriorou a imagem de Deus no homem e feriu sua condição, a boa nova, que é Cristo, o redimiu e o restabeleceu na graça (cf. Rm 5,12-21).”
É tão grande, tão incomensurável, tão excessivo mesmo o valor da pessoa humana que o próprio Jesus Cristo evoca a Palavra de Deus, constante no Salmo 81,6, em que os homens são chamados de “deuses” (10 10,34).
Nenhum autor poderia melhor definir a grandeza da pessoa humana do que o próprio Deus, autor da Sagrada Escritura e Criador de cada um de nós! Este nosso Deus, que revelou o seu próprio mistério – o mistério da Santíssima Trindade, pelo qual ficamos sabendo que só existe um único Deus, mas em três Pessoas distintas! – não quis deixar passar em branco o nosso mistério da pessoa humana. É até oportuno recordar, aqui, uma pergunta que o salmista faz a este respeito, bem como a resposta que lhe é dada, conforme se lê no Salmo 8:
“Que é o homem para que dele Vós vos lembreis, Senhor, nosso Deus? Que é o filho do homem [ou seja, cada um de nós], para que Vós vos ocupeis com ele? Entretanto, vós, Senhor, o fizestes pouco abaixo de Deus, e de honra e glória o coroastes! Destes a ele o poder sobre as obras de vossas mãos e vós lhe submetestes toda a criação.”
Toda a ação evangelizadora e pastoral seja inspirada por esta visão da pessoa humana que acenamos e que nos é oferecida plenamente, pela revelação e pela tradição viva da Igreja.
As Diretrizes gerais de ação evangelizadora da Igreja no Brasil de 2003 a 2008 e prorrogadas até hoje prepararam as pistas de ação segundo o esquema “serviço”, diálogo, anúncio, testemunho de comunhão e com a visão verdadeira da pessoa humana. Meditando este elenco de ações e atividades apontadas para toda a Igreja no Brasil, percebemos que essas diretrizes ainda oferecem respostas aos atuais desafios, com a valorização da pessoa humana e com atenção especial à solução da problemática do nosso Semi-árido cearense.
Hoje refletimos sobre A DIGNIDADE HUMANA. Brevemente abordaremos a Vida no Semi-Árido Cearense, em todos os seus aspectos. Ressaltamos com alegria que o Seminário sobre a Vida no Semi-Árido Cearense está sendo montado nesta visão autêntica do ser humano.
Dom Benedito Francisco de Albuquerque
Bispo Emérito de ltapipoca e Coordenador da Comissão Episcopal para o Semi-árido da CNBB NE1