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Ato público pede continuação do convênio com a Asa e destinar os recursos para construção das cisternas de placa
A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), responsável pela tecnologia social de armazenamento de água conhecida como cisternas de placa ou P1MC – Programa Um Milhão de Cisternas – ainda espera reverter a decisão do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) de romper o convênio com a Asa e destinar os recursos para construção das cisternas aos governos dos municípios e estados.
Dois dias depois do ato público de Petrolina (PE), que uniu 15 mil pessoas de vários locais do semiárido, inclusive da Diocese de Itapipoca, representantes da ASA foram a Brasília para um contato com autoridades do MDS. O encontro de Petrolina mostrou o apoio dos agricultores e vários setores que defendem o semiárido, contando com manifestações e presenças de autoridades católicas, como Dom Paulo Cardoso, bispo emérito de Petrolina, que leu a carta de Dom Genival Freitas, presidente da Regional Nordeste II da CNBB, apoiando a Articulação.
O encontro de Petrolina foi um momento prático e místico. Prático para mostrar a força da união e místico para restaurar a confiança e a unidade dos participantes. Segundo a assessora de comunicação da Cáritas cearense, Zoraia Nunes, que acompanhou os representantes cearenses, “um misto de indignação, revolta, surpresa e esperança permeou o tom das conversas durante a longa viagem rumo à Petrolina”.
Para mostrar a importância da manifestação, a assessora reproduziu as palavras do agricultor Sebastião Vieira, do município de Pentecostes, diocese de Itapipoca: “Nós vamos mostrar quem somos. Somos pequenos, mas somos grandes”, declarou sem titubear. Mesmo sem entender “por que querem mudar o que está dando tão certo”, seu Sebastião acredita que seja possível manter o trabalho da Cáritas, via ASA, porque só fez bem ao sertão.
Já seu Manoel de Oliveira, da comunidade Carrapato, município de Pentecoste, que, além de agricultor, é, também, “pedreiro de cisterna”, lembra que o equipamento é forte e natural: “Não se acaba nunca. Pode é botar água. E se rachar a gente sabe consertar... Já essas aí de plástico que o Governo quer botar...”. Sua opinião, publicada pela assessora da Cáritas, mostra o quanto o envolvimento popular no P1MC é forte e ajuda no crescimento comunitário.
A proposta do Governo Federal, de ampliar o abastecimento em parceria com os municípios e através de cisterna de plástico, tem forte rejeição da população. Além de introduzir um material não ecológico e menosprezar o emprego de mão de obra local, o programa queima etapa da mobilização das famílias, desarticulando o movimento popular, que foi tão reforçado no Governo do Presidente Lula.
A Diocese de Itapipoca tem vários projetos desenvolvidos em Parceria com a Cáritas/ASA. Toda uma etapa de mobilização e capacitação das comunidades precede a construção das cisternas. Na matéria de Zoraia Nunes, publicada na página da ASA na internet, ela enfoca o assunto pelas declarações de Jeová de Oliveira, do Crato, que, como facilitador do curso de Gestão de Recursos Hídricos (GRH) e parte do processo de capacitação das famílias beneficiadas, explicou: “Não é só a questão das cisternas. Tem a questão cidadã em prol do meio ambiente, da mobilização dos trabalhadores, de discussão das políticas públicas... É uma questão holística”.
“A não continuidade desse processo, que visa à participação e o empoderamento de famílias e comunidades, é algo que as organizações temem”, diz a matéria, lembrando que recolocar esse recurso nas mãos dos prefeitos e governadores representa um retrocesso na construção da participação popular, que os partidos políticos pregam, mas, ao que parece, não querem que aconteça na prática.
“Consideramos isso um retrocesso, o que pode gerar um retorno claro e nítido a velhas práticas da indústria da seca, onde as famílias são colocadas novamente como reféns de políticos e de empresas, tirando-lhes o direito de construírem sua história. É também uma tentativa de anular a história de luta e mobilização no semiárido, devido à incapacidade do próprio governo em atuar com ONGs, sem separar o joio do trigo, e não ter, até hoje, construído um marco regulatório para o setor, uma das promessas de campanha da presidente Dilma”, destaca a ASA.
Inês Prata Girão
Jornalista
Cisternas de plástico custam mais que o dobro das cisternas de placa
Verônica Pragana
Enquanto a Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) reivindica os recursos previstos para a continuidade de suas ações, o governo federal vai investir R$ 1,5 bilhão na instalação de 300 mil cisternas de plástico. O valor gasto pelo governo corresponde a mais que o dobro do que a ASA gastou para construir 371 mil cisternas de placas no Semiárido.
Cada cisterna de plástico custa aos cofres públicos R$ 5 mil, segundo informou o Ministério da Integração Nacional numa reunião com representantes da ASA, em Brasília. A cisterna de placa custa R$ 2.080,00. No Programa Água para Todos, além das 300 mil cisternas de plásticos, serão construídas 450 mil de placa.
Outro fator que tem grande importância neste comparativo é o volume de recursos que são movimentados na economia local quando as cisternas são construídas. Para cada dez mil cisternas de placas feitas, são injetados na economia local R$ 20 milhões, através de compra de matéria-prima na região, contratação de pedreiros das comunidades e impostos. Já as cisternas de plástico serão fabricadas por indústrias e entregues nas comunidades rurais por empreiteiras.
A Articulação no Semi-árido (ASA) tem encabeçando uma campanha contra as cisternas de plástico. Além de economicamente inviável, a ASA aponta outros fatores negativos em relação à distribuição desse equipamento que já vem pronto para as famílias. Um deles diz respeito ao não domínio da técnica de construção pelas famílias e pedreiros da região.
Para a sociedade civil, a disseminação ds cisternas de plástico é uma nova forma de atuação da “indústria da seca”, cujas obras são feitas sob a alegação de “combater a seca” que sempre beneficiaram poucos, mantendo o poder das elites dominantes.
Fonte: asabrasil.org.br
