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A origem do Ciclo do Natal
Para muitos, é fato realmente estranho começar o ciclo do Natal em pleno mês de dezembro. Marcelo Barros conta num artigo que escreveu sobre um amigo que muito se espantou quando foi à missa no início do Advento e disseram-lhe que, naquele dia, começava o ano novo na Igreja – era tempo de preparação para o Natal. Ele imaginou que iria participar de uma festa. No lugar disso, viu o altar e o padre vestidos de roxo e escutou o Evangelho do fim do mundo. Ele não entendeu nada.
Para os cristãos, a catequese do Natal será melhor compreendida quando encaramos o nascimento de Jesus – 25 de dezembro – não como um fato histórico, mas a partir da compreensão de que ele, sendo o Sol das nossas vidas, toma forma e jeito de criança, se faz homem e visita a terra, que, por sua vez, está grávida de seu amor e de sua salvação.
Já São Leão afirmava, no século V, que toda celebração litúrgica contém um “mistério”, pois, a partir da memória do que aconteceu, os cristãos são incorporados ao efeito de salvação que este acontecimento continua realizando no presente, como assim o é, por exemplo, o mistério do nascimento de Jesus.
Outro elemento que sempre ouvimos é o de que “o menino Jesus nasce em nossos corações”. Para Barros, se fosse assim, sendo apenas uma coisa intimista e sentimental, isto não seria “mistério” (sacramento), o que contraria o pensamento de São Leão.
É por isso que os cristãos começam a Missa da Vigília de Natal cantando:
1. Reis e nações se amotinam e tramam, por quê? E vão contra o Senhor e o Messias, por quê? Deles se ri e aborrece o Senhor, e ouvirão: “fui eu quem consagrei o meu rei em Sião!”
Glória ao Senhor, nas alturas, sem cessar.
Glória ao Senhor, terra inteira a cantar! (bis)
Não se trata de um dia como um outro qualquer, é um dia preparado desde todos os tempos por Deus, cujo Salmo 2 retrata historicamente esta preparação para o grande acontecimento da vinda do Senhor, apontado como um messias, o filho da divindade, como assim o era considerado na tradição de Israel. Teve origem na revolta da população local, cujo novo reinado de Judá, que dominara a região, desrespeitara a modalidade de passagem de reinado de pai para filho. Neste salmo, o Senhor intervém, como que intercedendo e ungindo um novo messias a fim de que ocupe o reinado e traga a paz necessária aos povos de Israel.
Cantando este salmo, é como se, no início da celebração da Vigília do Natal, fizéssemos uma espécie de recordação da vida, elencando os fatos, as memórias e os acontecimentos, claro, de uma maneira musical, o que torna o elemento simbólico muito mais atrativo e propício ao momento celebrativo. É neste sentido que sonha Buyst, quando sugere que, aprimorando-nos de técnica e espírito, a música na liturgia pode superar a timidez para dançar pelo menos em dias de festa, redescobrindo a riqueza de uma leitura bíblica, cantada em forma de recitativo e encontrando o tom poético para “dizer” as orações litúrgicas.
De fato, a Igreja sempre teve a preocupação de liturgicamente preparar os cristãos para a vinda do Senhor. Chamamos esse período de preparação como sendo o tempo do Advento, cuja inserção acontece no Ciclo do Natal, que se estende do primeiro domingo do Advento até a festa do Batismo do Senhor.
O Advento nos dá a possibilidade de preparar, num ritmo mais intenso, a vinda do reino de Deus em nosso mundo. Para Barros, de certo modo, o que mistifica este tempo é a “gravidez” do tempo, que cria em nós uma atitude permanente de espera, que nos faz crer na força escondida da Vida, que, continuamente, está para nascer[4]. Essa maternidade também se prolonga misticamente na Igreja, gerando o Cristo em nós.
Os primeiros cristãos expressavam esta ânsia na invocação: “Maranathá!”, o que quer dizer: “Vem, Senhor Jesus, vem!”. Contudo, isso foi-se perdendo com o tempo.
Para os orientais, representando iconograficamente o nascimento de Jesus, vemos que o menino Jesus está envolto como numa espécie de sudário, significando aquilo que o envolveria na ocasião da sua morte. Outras representações ainda mostram a manjedoura como numa forma de cruz, representando já no Natal o anúncio da Ressurreição.
Na verdade, crê-se que o Natal surgiu da festa da Vigília Pascal e está mais ligado à celebração da luz, depois dos dias escuros no hemisfério norte. Assim, está mais ligado à Páscoa do que a uma simples memória do passado. De fato, na espiritualidade do Natal, está um elemento que, segundo Barros, chamamos de regeneração da humanidade, como que sendo um novo início de vida de Deus em nós.
Como já vimos, o dia do Sol, comemorado pelos pagãos, passou a ser elemento ritual das celebrações cristãs, dando sentido como Cristo, o Novo Sol, que resplende em meio às trevas, que vence a morte e ressuscita é também o elemento central da festa do Natal.
Desta forma, tem sentido o canto abaixo, sugerido já no 4º domingo do Advento:
Antífona
Como o sol nasce da aurora, de Maria nascerá aquele que a terra seca em jardim converterá. Ó Belém, abre teus braços ao pastor que a ti virá.
É também o Advento considerado com uma forma de “Quaresma do Natal”. Nas Igrejas orientais, ainda se costumam batizar os catecúmenos por ocasião da celebração de 6 de janeiro – Teofania, retomando o sentido primitivo que, por ocasião da quaresma, ocorria a preparação e o batismo dos mesmos catecúmenos.
Tanto o Advento como o Natal nos fazem pensar numa espiritualidade mais centrada na esperança de vida nova, como assim o fazemos por ocasião da Quaresma. Neste sentido, tem o significado do termo Advento como ‘o Senhor vem!’ e também, na alegria da expectativa assume ainda este significado: ‘O Senhor virá!’. Reduzir o tempo do Advento a uma simples preparação para o Natal seria empobrecer seu espírito e seu caráter. Assim, como na Quaresma, acender e reavivar o ânimo do tempo sugerido são fatores característicos intrínsecos dos cristãos. O coração de pedra que se transforma num coração de carne é o alento de uma nova esperança. E essa esperança, fruto da ação do Espírito no íntimo dos corações (Rm 8,22-27) nos faz reacender o desejo “de modo que vivamos neste mundo na sobriedade, justiça e amor filial, aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo (Tt 2,12-13).
Cláudio Gonçalves Viana
Aspirante ao diaconato da Paróquia São Francisco de Assis - Itapipoca
